“Eu tenho o paladar infantil”. Quem nunca se deparou com um adulto que usa essa expressão para explicar sobre suas preferências alimentares? Apesar do termo não ser oficial ou científico, ele faz referência ao fato da pessoa não gostar de algum tipo de alimento. No geral, essa rejeição é por alimentos que costumam ser recusados por muitas crianças: os legumes, as verduras e as frutas.
O que muita gente chama de paladar infantil tem nome, contexto e história: seletividade alimentar. E ela começa, sim, na infância, mas não termina necessariamente ali.
Antes de rotular esse comportamento como frescura ou teimosia, seja nos adultos ou nas crianças, sabia que isso tem fundamento em uma (boa!) herança evolutiva? Sim, humanos tendem a evitar alimentos verdes ou de sabor mais amargo, porque essas características podem sinalizar a presença de toxinas ou substâncias nocivas. Então, esse traço protetor passou de geração pra geração, mantendo esse “eeeeeca” nos pequenos do século XXI (e dos séculos que ainda estão por vir).
Assim, entender a seletividade alimentar é o primeiro passo para lidar com ela de forma mais leve, respeitosa e eficaz. Sem culpa, sem pressão e sem transformar a comida em um campo de batalha.
O que é seletividade alimentar?
A seletividade alimentar é um comportamento caracterizado pela recusa ou resistência a certos alimentos, sabores, cheiros ou texturas, levando a um repertório alimentar mais restrito.
Ela pode aparecer de forma leve ou mais intensa, em diferentes fases da vida, e não deve ser automaticamente vista como um problema.
Na infância, esse comportamento é bastante comum e faz parte do desenvolvimento. Em muitos casos, a criança cresce saudável, mesmo com algumas recusas à mesa. O ponto de atenção não está na existência da seletividade em si, mas na rigidez, na persistência e no impacto que ela pode ter na alimentação, no convívio social e na nutrição.
É importante diferenciar seletividade alimentar de simples preferência. Todo mundo tem gostos, afinal. A seletividade entra em cena quando a variedade alimentar fica muito restrita e a abertura para experimentar novos alimentos é mínima ou inexistente.
Seletividade alimentar não é “frescura”
Vale reforçar: seletividade alimentar não é frescura, birra ou falta de força de vontade. Existe uma base biológica importante por trás desse comportamento.
Do ponto de vista evolutivo, humanos tendem a desconfiar de alimentos amargos, verdes ou de aparência desconhecida, o que é uma estratégia ancestral de proteção contra toxinas. Esse mecanismo, que ajudou nossos antepassados a sobreviver, ainda se manifesta nas crianças de hoje (e, muitas vezes, nos adultos também).
Quando o desenvolvimento alimentar ocorre com baixa exposição a alimentos variados, experiências negativas ou pressão excessiva, a seletividade pode se manter ao longo do tempo. O problema não é a recusa em si, mas o contexto em que ela acontece.
Por que algumas pessoas são mais seletivas ao comer?
A seletividade alimentar é multifatorial. Ou seja: não existe uma única causa, nem uma explicação simples. Ela costuma surgir da combinação de fatores sensoriais, emocionais, culturais e experiências anteriores.
Textura, cheiro e memória afetiva
Para muitas pessoas, o desafio não está no sabor, mas na textura. Alimentos pastosos, fibrosos, crocantes demais ou “misturados” podem gerar desconforto real. O cheiro e a aparência também contam na experiência.
Além disso, a comida carrega memória. Uma experiência ruim, como engasgos, enjoos, episódios de mal-estar ou até momentos de tensão à mesa, pode criar associações negativas difíceis de quebrar.
O corpo aprende a evitar aquilo que, em algum momento, pareceu ameaçador.
Seletividade alimentar na infância
Na infância, a seletividade alimentar costuma aparecer com mais força entre os 2 e 6 anos. É uma fase marcada por maior autonomia, desenvolvimento sensorial e, claro, muita curiosidade, inclusive sobre dizer “não”.
Aqui entra um ponto importante: exposição importa. As crianças precisam ver, tocar, cheirar e experimentar alimentos várias vezes antes de aceitá-los. Quando essa exposição é limitada ou acontece sob pressão, a tendência é o efeito contrário.
O famoso “paladar infantil” nada mais é do que esse processo em construção. Mas quando ele não é acompanhado com escuta e paciência, pode se prolongar.
Seletividade alimentar em adultos existe?
Sim, existe e é mais comum do que se imagina. Muitos adultos convivem com padrões alimentares restritos que começaram lá atrás, na infância, e nunca foram repensados ou reavaliados.
A seletividade alimentar no adulto pode passar despercebida por anos, especialmente quando não há impacto evidente na saúde.
Isso não quer dizer que ela não importa e pode, sim, influenciar escolhas sociais, viagens, refeições fora de casa e até a relação com o próprio corpo.
Restrição alimentar ao longo da vida
Com o tempo, a seletividade pode se misturar com rotina, praticidade e controle. Comer sempre as mesmas coisas parece mais fácil, mais seguro e menos desgastante.
O problema surge quando essa restrição limita o acesso a nutrientes importantes ou gera sofrimento. Aqui, de novo, é essencial diferenciar:
- preferência alimentar (escolhas conscientes e flexíveis)
- seletividade alimentar (rigidez e resistência)
- transtornos alimentares (condições específicas, com critérios diagnósticos e que demandam assistência médica especializada)
Então, é importante buscar entender o contexto e as experiências individuais com o alimento e o ato de comer em si.
Quando a seletividade merece atenção?
Nem toda seletividade precisa de intervenção. Mas alguns sinais merecem um olhar mais atento:
- exclusão persistente de grupos alimentares inteiros
- repertório muito limitado, sem abertura para novidades
- prejuízos nutricionais, sociais ou emocionais
- sofrimento intenso relacionado à comida
Assim, quando a gente fala em seletividade alimentar é necessário pensar empaticamente sobre saúde física e emocional. O julgamento ou a pressão podem dificultar o processo de abertura a novas experiências alimentares, ainda que elas sejam importantes para ampliar o repertório, melhorar o bem-estar e trazer benefícios nutricionais.
Diferença entre seletividade e transtorno alimentar
Nada de patologizar a seletividade alimentar combinado? Os transtornos como o TARE (Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo) envolvem critérios específicos e devem ser avaliados por profissionais.
Em alguns contextos, como no Transtorno do Espectro Autista (TEA), a seletividade pode estar relacionada a questões sensoriais mais intensas que não podem ser minimizadas ao pensar em estratégias para reeducação alimentar.
Portanto, a seletividade não significa diagnóstico automático ou ausência de possibilidades de ampliação do repertório. É sempre valioso lembrar que existem caminhos diferentes, mais cuidadosos e que respeitam as individualidades.
Como lidar com a seletividade alimentar no dia a dia?
Em muitos casos, é possível virar o jogo. Mas sem forçar a barra com culpa ou imposição. Para aqueles que precisam só de empurrãozinho para encarar as rúculas, mamões e beterrabas do caminho, a gente sugere um passo a passo:
É preciso entender qual foi a última vez que a pessoa provou o alimento recusado (ou se já provou alguma vez). Aí é aquela máxima que nossas mães diziam: se não provou não dá pra falar que não gosta.
Depois, a pergunta de um milhão de reais: por que aquele alimento incomoda tanto? É o sabor, cheiro ou é a textura? Isso define como esse momento de experimentação vai ser feito.
Informações colhidas, hora de pensar fora da caixinha. Será que precisa ir logo na versão “pura” do alimento? Dá para colocar em alguma preparação que a pessoa gosta? O que é melhor para lidar com a resistência a ele?
Para o mergulho final, fazer receitas que incluam esses alimentos: Já pensou em um suflê de espinafre ao invés do espinafre refogado? Ou uma vitamina de mamão com banana (com Nude, claro) ao invés da fruta pura? E até um homus de beterraba, incrivelmente mais interessante que a beterraba ralada… Hmmmmm!
Mais do que pensar em nutrientes isolados, o que conta aqui é experiência. Comer também é afeto, curiosidade e prazer.
Atenção: Em casos específicos e situações mais sérias, como TARE e outras condições (TEA, por exemplo), o tratamento toma um outro rumo e deve ser conduzido por uma equipe multidisciplinar.
Escuta, repertório e autonomia alimentar
Para que esse processo seja mais leve, prazeroso e, claro, efetivo (e afetivo!), alguns princípios fazem toda a diferença:
- escuta ativa: entender o que incomoda naquele alimento
- criatividade: explorar diferentes preparações, texturas e combinações
- autonomia: respeitar o ritmo de cada pessoa
E não existem respostas certas! Às vezes você vai experimentar um alimento em diferentes receitas, ir com calma e mesmo assim não gostar dele. Faz parte, combinado?!
Comer bem também é respeitar o próprio ritmo
A seletividade alimentar não define caráter, maturidade ou saúde. Ela é uma expressão da relação que cada pessoa construiu com a comida ao longo da vida.
Assim, nossa dica é: exclua a palavra “culpa” do seu dicionário! Nada de se sentir mal por não ter gostado de algo, o importante é manter-se aberto a novas (possíveis) experiências.
Respeitar esse processo, sem romantizar nem patologizar, é o que abre espaço para mudanças reais. Pequenas, possíveis e sustentáveis.
Nessas horas, mais do que pensar nas funções nutricionais de cada alimento, o que conta mesmo é a criatividade. Afinal, podemos criar um mundo de possibilidades para acessar os nutrientes! E preparações únicas e gostosas somadas com a vontade de comer geram experiências únicas de descobertas e muito prazer!
Porque no fim das contas, comer bem não é comer tudo, é conseguir se relacionar com a comida de forma mais leve, consciente e gentil.
FAQ — Dúvidas frequentes sobre seletividade alimentar
O que é seletividade alimentar?
É um comportamento caracterizado pela recusa ou resistência a certos alimentos, sabores ou texturas, levando a um repertório alimentar mais limitado.
Seletividade alimentar é a mesma coisa que transtorno alimentar?
Não. A seletividade pode existir sem configurar um transtorno. Transtornos alimentares têm critérios específicos e exigem avaliação profissional.
Adultos também podem ter seletividade alimentar?
Sim. A seletividade pode persistir ao longo da vida, especialmente quando não foi trabalhada na infância e adolescência.
Seletividade alimentar tem relação com autismo?
Pode ter, mas não é mandatório. Em algumas pessoas no espectro autista, a seletividade costuma estar ligada a questões sensoriais, mas isso não significa ausência de estratégias ou possibilidades de ampliação alimentar.
Como ampliar o repertório alimentar sem pressão?
Com escuta, criatividade, exposição gradual e respeito ao ritmo individual. Pressão costuma gerar mais resistência, não mais abertura.



